Vila das Artes Jacareípe: se encante com a história do Seu Neusso

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Existe coisa melhor numa viagem do que encontrar alguém disposto a contar a sua história? Como viajante e produtor de conteúdo eu digo para você, se tem eu ainda não descobri. Durante minha viagem pela Espírito Santo participando do Encontro de Blogueiros de Viagem Pocando no ES, tive o imenso prazer de escutar o Seu Neusso, um artista que construiu a sua própria casa, utilizando pedras. Te convido a viajar pelas palavras e sentimentos dele, vamos?!

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O Seu Neusso é uma das figuras mais icônicas da Vila das Artes em Jacareípe, local que hoje concentra uma grande quantidade de artistas, que vivem e produzem suas obras por lá.

“Uma pedra encaixa na outra e não cai” é com essa simplicidade que esse grande artista, arquiteto, designer começa a contar o processo de construção da sua casa.

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Como surgiu a Casa de Pedra

Muitos visitantes vão até lá só para ver de perto a tão curiosa Casa de Pedra. Tudo começou em 1990 quando vindo do Vale do Jequitinhonha o jovem artista de uma família de 15 irmãos precisava de um lugar para morar, mas se viu em um terreno que tinha apenas pedras e nada mais.

O primeiro passo foi construir a frente, um grande paredão de 3 metros e colocar uma porta, o Seu Neusso conta que a partir daí ele já ficava orgulhoso de passar em frente ao local e ver que havia algo construído. Como num grande quebra cabeça as outras paredes foram sendo levantadas pouco a pouco e após dois anos sua casa estava pronta.

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Ao falar sobre essa relação com materiais tão diferentes, o artista diz que foi tudo muito natural e intuitivo e se diverte contando como conseguiu amolecer o coração de um empresário italiano para doar as cascas que eles precisava para terminar a construção.

As histórias do Seu Neusso

“Passei em frente a uma serraria em Vitória e vi várias cascas queimando, na hora pensei que poderia usar na minha casa, mas os funcionários diziam que o patrão era muito bravo e não me daria as casas… um dia a Casa de Pedra saiu no jornal e eu mostrei ao italiano dizendo que era para aquilo que eu precisava das cascas, na mesma hora ele me deu um caminhão delas.” e completa com um sorriso “Se eu não ficasse ali batendo, batendo eu não teria aquela parede, nem o assoalho e muitas coisas mais…”

Para mim escutar as palavras do Seu Neusso era ter um exemplo muito bonito de perseverança, afinal de contas na nossa sociedade moderna, quem em sã consciência passaria dois anos empilhando pedras para construir a própria casa? Naquele momento compreendi o verdadeiro valor de diferentes tipos de conhecimento.

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O artista conta sua relação com dois arquitetos da região que constantemente iam visitá-lo. Com sorriso inocente ele diz que ficava muito ansioso pois imaginava que eles o ajudariam a construir a sua casa. “Sentia uma energia tão grande quando eles vinham aqui… pensava meu Deus tenho dois arquitetos.” Mas para surpresa dele, os profissionais nunca conseguiram dar algum pitaco na obra, apenas diziam para o artista continuar escrevendo sua própria história.

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Imagino que eles deviam ficar incrédulos ao ver uma construção que desafiava tantos saberes técnicos, mas que era cheia de conhecimento popular e trazia de volta a relação essencial do homem com o meio. O Seu Neusso é um exemplo de muitas coisas, mas principalmente da capacidade de se enxergar parte da natureza. Ele não se desconectou, enxergou as pedras, o barro e outros elementos naturais como elementos vivos e que fazem parte da existência humana.

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Depois de 16 anos vivendo na Casa de Pedra, o artista decidiu se mudar, já não conseguia mais receber a quantidade de visitantes e ainda assim ter um canto só seu. Hoje ele vive numa casa que não é aberta ao público, mas suas obras continuam expostas e seu espaço de criação continua ali. Desde que Seu Neusso se mudou para lá, outros artistas passaram a se mudar para lá também, criando um grande centro artístico e dando origem à Vila das Artes.


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Após uma conversa cheia de sorrisos e todas essas histórias que relatei aqui fui caminhar pela casa, é impressionante como cada ambiente demonstra o carinho que artista tem com a construção.

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A construção parece ter vida própria, decorada com as flores que cresceram ao redor, iluminada pela luz do Sol que atravessa gentilmente as janelas e no fundo aquecida por um fogão à lenha que estava aceso no momento em que visitei. As obras ficam dispostas de forma tão natural que parecem ter sido pensadas para ocupar aquele espaço.

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Funcionamento da Casa de Pedra

Sobre o funcionamento da casa, ele nos diz que a Casa de Pedra está aberta todos os dias e que ele costuma estar presente sempre que possível, e nos lembra que ser artista significa matar dois leões todos os dias.

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Visitar a Casa de Pedra e ouvir o Seu Neusso me provocou ainda mais uma reflexão. No Brasil existem mais de 6 milhões de imóveis vazios segundo dados de 2015 e 5,43 milhões que não tem onde viver. Não é exagero dizer que sobram casas vazias enquanto milhões vivem nas ruas. Nesse contexto ver um artista que, mesmo inconscientemente rompe o sistema, reescreve sua história e constrói a própria casa com os recursos que tinha disponíveis foi emocionante.

Já escutou uma história emocionante durante uma viagem? Que tal dividir essa história com a gente aqui nos comentários?

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Estudante, 21 anos, ama descobrir novas culturas e novos lugares. Viciado em escutar histórias e recentemente se viciou também em compartilhá-las.

7 Respostas

  1. Nossa que lindo seu relato sobre a história desse grande artista. Posso dizer que tive a honra de conhecê-lo no mesmo dia que você. Parabéns pelo conteúdo. Ficou Maraaa…

  2. Que lindo o teu relato, Matheus! Juro que li como se estivesse ouvindo tua voz e do Neusso contando a história. 🙂

    • Matheus Crespo da Silva

      Ah Mari que alegria ver que você gostou do post e da forma como contei essa história.
      Bjão querida!!!

  3. Que post lindo! Amei sua visão hiper sensível da história do Sr. Neusso. <3

    Vou linkar com o post que estou preparando.

    Beeeeijos, benzim.

    Finalmente conheci seu blog, estou adorando! :*

    • Matheus Crespo da Silva

      Ah Mônica que bom ver seu comentário aqui, fico muito muito feliz que tenha gostado do post, quando o seu ficar pronto quero conferir também.

      Bjão

  4. […]  A história dessa casa é tão interessante, que te convido a saber mais através das impressões desse querido viajante, Mateus, do O Baú do Viajante. […]

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